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A REVELAÇÃO E AS FONTES DA TEOLOGIA

Por Ir. Jackson C.Silva, NJ*

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O itinerário da Revelação e a sistematização da Teologia

A Revelação de Deus tem sua origem divina e destinada ao homem que é chamado a respondê-lo através da fé. Desde o A.T. Deus tem-se revelado ao homem através dos patriarcas, dos profetas e dos sábios. Essa Revelação ganha proporções universais, uma vez que Israel se entende ao longo da história como sendo luz para as nações. Não bastasse, Deus em sua infinita bondade manifesta-se plenamente através da encarnação de seu Filho, Jesus Cristo, Palavra que se fez carne e habitou entre os homens (cf. Jo 1,14).

Jesus, Palavra viva encarnada, pela Palavra, Experiência e Prática do seu Evangelho comunica o Pai ao homem. Se os primeiros cristãos tinham a missão de serem testemunhas da Revelação de Deus em Jesus Cristo, a geração posterior, com a expansão do cristianismo ao mundo Greco helenístico, sentiu a necessidade de iniciar um trabalho de apologética da fé.

Com o crescimento das comunidades, elevava o número de perseguições e consequentemente necessitou-se de uma apologética da fé mais elaborada a partir do séc. II. Posteriormente aparecem diversas heresias, mas respondidas pelos primeiros Padres da Igreja. A sistematização dos “conteúdos” da Revelação vai acontecendo e vai aparecendo os diversos tratados e escritos de fé.

Na Idade Média continua-se defendendo a fé frente aos judeus e aos mulçumanos. Mas a apologética atinge seu apogeu em S. Tomás de Aquino, não mais como defesa ferrenha, mas uma estruturação para uma consolidação da doutrina. Aqui também se destaca a relação entre fé e razão diante da Revelação, mesmo que se tenha aparecido também uma vertente teológica mística baseada na contemplação dos mosteiros bem como no cristianismo oriental.

Até o fim da Idade Média, a Revelação era um dado fundamental e as questões levantadas eram mais periféricas e de cunho mais interno da Igreja. Com a modernidade, ela tornou-se central, uma vez que foi bombardeada com questões fundamentais. A Reforma Protestante punha em cheque a interpretação da Revelação entre a primazia da Escritura frente à Tradição. O deísmo questionava-a acerca de sua sobrenaturalidade. E o ateísmo acerca de sua existência. O Cristianismo, sobretudo o catolicismo, a partir de então foi deixando de ser “A Religião” e sendo “uma Religião” dentre as várias.

Portanto, ao longo desse itinerário de “sistematização” da Revelação e sendo ela princípio determinante da teologia, faz-se necessário compreender de que forma ela possui principio formal ao ponto de perpassar e subsistir todos esses anos. Assim, Clodovis Boff apresenta a fé como tal princípio ao ponto de ser ponte entre a Revelação e a Teologia, destacando três dimensões: FÉ-PALAVRA, FÉ-EXPERIÊNCIA e FÉ-PRÁTICA. De fato, elas estão intrinsecamente tão interligadas e codependentes que facilmente podemos confundir a primazia uma da outra.

 Fé-Palavra

 Deus ao revelar-se ao seu povo chegando ao seu cume em Jesus Cristo e o homem respondendo a essa proposta de Deus servem-se da Palavra. Por mais que experiência esteja em uma primeira instância, ela não se daria nem mesmo se sustentaria sem o uso da Palavra, inicialmente falada e posteriormente escrita a fim de traduzir a experiência da manifestação de Deus ao longo da História da Salvação.

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Assim, a Fé-Palavra dá forma e transmite o conteúdo da fé, sendo um princípio inteligível da teologia. É fundamental para o discurso da fé (teologia) “contendo potencialmente os germes de todas as teologias subsequentes, (…) sendo que a Bíblia inaugura a teologia como elaboração doutrinal.”[1] Se Israel, por exemplo, não tivesse elaborado uma (ou várias) teologia(s) que posteriormente foram escritas, possivelmente nos momentos de crise, iria perder sua fé e inclusive sua identidade em meio aos seus dominadores.

Posteriormente, daremos continuidade na primazia da Fé-Palavra bem como sua interligação diante das outras dimensões da fé.

 Fé-Experiência

 O conceito de Palavra, sobretudo no mundo semítico, não é simplesmente de conteúdo, mas de experiência, uma vez que a Palavra é viva, transformadora, experiencial (Gn 1,1; Hb 4,12). A própria Palavra de Deus tem sua origem na experiência que o homem/povo fez com Deus como vimos. Inclusive os próprios discípulos tiveram sua experiência com o Cristo e sua ressurreição. E Paulo, por exemplo, parte da experiência dos gregos para depois falar de Jesus (cf. At 17,16-34).     Isso facilmente nos confunde ao ponto de podermos afirmar que a Fé-experiência é princípio primeiro da Teologia. E no aspecto da vida de fé em geral é sim critério decisivo. Se o ser humano não tiver uma experiência existencial de Deus verdadeiramente, o que adiantaria as Escrituras e o conteúdo da fé? E para aqueles mais simples que não tem acesso restrito aos conteúdos, discursos e sínteses da fé? Quem teria a primazia? Palavra ou experiência?

No olhar da teologia mística, a experiência parece ter a primazia, sobretudo no aspecto nupcial entre Deus e o ser humano:

“A teologia mística não olha as operações do intelecto ou do sentimento, mas somente a unidade ou a união da essência do espírito ou da mente com Deus. Por isso, não se ocupa enquanto verdade, amor, beleza, mas consiste num amplexo só espiritual, inefável e mesmo assim experimental entre o Esposo e a Esposa.”[2]

 povo sacerdotal

            Segue nessa linha uma “Teologia genuflexa” que prioriza a experiência com Deus frente ao conhecimento: “conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus” (Ef 3,19). Já a Igreja Oriental tem vivenciado uma teologia mística focada na liturgia e louvor a Deus, o que não deixa de expressar sua experiência.

Por outro lado, a Fé-experiência não pode ser ponto de partida formal da teologia, pelo fato de esta ser reflexão primeiramente da Palavra de Deus e não da fé da comunidade. A Palavra de Deus não está à mercê das pessoas, mas elas é que estão a serviço dela. O próprio Magistério está a serviço dela.[3]. A experiência, assim, deve ser apreciada a partir do conteúdo da fé revelada. E apesar de nem todos terem acesso aos conteúdos formais da teologia, a experiência com Deus, pressupõe e perpassa conteúdos mínimos, como por exemplo: Deus que criou e amou o mundo enviando seu Filho para nos salvar e se fazer perto de nós e este nos convida a amarmos uns aos outros. A própria oração, na linha da teologia mística, pressupõe a Palavra.

 Fé-Prática

 Em Israel, responder à Revelação do Senhor se dá pela fé no ouvir praticando os seus mandamentos. A denúncia dos profetas foca a fé não vivida na prática de Israel que louvam a Deus com os lábios, mas o coração e suas atitudes estão longe de Deus, uma vez que não praticam o direito e a justiça, sendo, portanto, infiéis a Ele. Jesus também enfatizou a Fé-prática no sermão da Montanha (Mt 7,21-27), parábola dos dois filhos (Mt 21,28-32) e sobre o julgamento final (Mt 25,31-46).

De acordo com Clodovis Boff[4], a Fé-prática apresenta diversas funções para a teologia: a) matéria-prima: o-que-deve-ser-teologizado; b) objeto (télos); c) condição pré-epistemológica para todo teólogo; d) princípio cognitivo o qual provoca conhecimento teológico no sentido de despertar reflexões que possam iluminar a fé interpelando-a. Aqui, a Fé-prática corpora, verifica e testemunha a Teologia, tornando-a mais concreta.

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A práxis é uma componente integrante da fé, sendo de certa forma uma fé acabada cumprida, consumada, completa, encarnada, terminada. Ela não é ponto de partida formal da teologia por ter uma correspondência com o plano de Deus (Palavra de Deus), do contrário, não seria práxis evangélica. Focando-se e partindo da práxis corre-se o risco de ver o mundo infinito de Deus a partir da realidade finita do homem além de poder tornar-se uma ideologia. A própria Teologia da Libertação, que enfatiza a fé-prática, é definida por Gustavo Gutiérrez como sendo “a reflexão crítica da práxis histórica à luz da Palavra.”[5]

Por outro lado, práxis pode ser princípio determinante da teologia como sendo a práxis de Deus que compreende acontecimento e palavras intimamente conexos entre si.

 CONCLUSÃO

A Revelação ao contrário de ser conteúdo, ela, sobretudo no A.T. é uma série de experiências de encontro entre Deus, que se manifesta por sua Palavra e acontecimentos teofânicos ao homem (povo). O próprio termo hebraico davar (“Palavra”), é mais que instrumento para expressar um pensamento. É encontro com Deus que se revela transformando a vida da comunidade e a existência individual quando proclamada. Além disso, é inserida e transcendente na história. No N.T. “a ‘Palavra’ se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14) pregando, ensinando, curando e libertando.

Diante disso, percebemos que, mesmo a Fé-Palavra apresentando primazia frente às outras dimensões da fé, todas estão intrinsecamente ligadas e são coexistentes. Enquanto, Fé-palavra é princípio formal ou determinante, a Fé-experiência apresenta-se como princípio existencial e a Fé-prática como princípio verificador e interpelador da Teologia.

De fato, Fé mesmo com conteúdo, mas não testemunhada, é morta (Tg 2,26). Sem Experiência de fé torna-se “depósito de doutrina empoeirada” ou lei rubricista e opressora. Experiência de fé sem prática é incoerência e hipocrisia, enquanto sem Palavra, abstração e devaneio. Prática sem a Palavra e sem Experiência de fé é, assistencialismo, ideologia ou até caridade, mas não cristã.

 


[1] BOFF, Clodovis – Teoria do Método Teológico. 2ª Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999, p.117

[2] Jean GERSON, La teologia mística. Paoline: Roma, 1992, p.29 (in BOFF, Clodovis,1999, p.140), seguindo a mesma linha de: Orígenes, comentário ao Cântico dos Cânticos, 1,1 in BOFF, Clodovis, 1999, p.136

[3] A Constituição dogmática Dei Verbum , N.10

[4] BOFF, Clodovis, 1999, p. 157

[5] Gustavo GUTIÉRREZ, Teologia da Libertaçao, Vozes, Petrópolis, 1975, p.26 in BOFF, Clodovis, 1999, p.121
* Membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Licenciado em Física pela UFC e em Filosofia pela UECE. Graduando em Teologia na FAJE-BH e pós-graduado em Formadores para Vida Religiosa no ISTA-BH. Contato: irjackson.nj@gmail.com

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