Uma fé autêntica e profunda!

Por Ir. Jackson C. Silva, NJ*

jesus

O trecho de Mt 23,27-32 está situado no grande bloco de sete(oito) invectivas(repreensões que começam com“ai”) contra os mestres da lei e os fariseus (Mt 23,13-32).

Mas quem são os mestres da lei e os fariseus e por que Jesus está chamando à atenção deles tão duramente? Na época de Jesus existiam vários partidos políticos e religiosos no judaísmo: zelotas (“zelosos” da lei, guerrilheiros, descendentes da tribo de Levi), herodianos (“bajuladores de Herodes”, aliados do Império Romano), essênios (penitentes que se refugiavam no deserto), saduceus (pertencentes ao Sinédrio) e os fariseus e mestres da lei conhecidos como os guardiões da fé, por sua piedade e interpretação da Lei de Moisés.

Depois da destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C, o grupo que sobreviveu e levou adiante o judaísmo foram os fariseus e os mestres da lei. Restava então somente ele como adversário dos primeiros cristãos. Daí o Evangelista Mateus, que escreveu nesse período, destacar esse grupo.

Assim, Jesus repreende os fariseus e os mestres da lei devido a muitas incoerências dos seus ensinamentos. Eram tidos pelo povo como “exemplos” por seguirem fielmente a Lei de Moisés, sendo responsáveis com isso de conduzirem o povo para um reto caminho. Entretanto, eles focavam seus ensinamentos em aspectos minuciosos, pontuais e práticas externas, mas descuidavam-se de elementos primordiais e profundos da Lei. Desse modo, as repreensões de Jesus contra eles são: 1) Exclusão do Reino dos Céus ao povo (Mt 23,13); 2) Tomada dos bens das viúvas na desculpa de fazer orações (Mt 23,14); 3) busca de mais adeptos, porém colocando fardos pesados sobre eles (Mt 23,15); 4) juramentos  pelo templo e pelo altar proibidos, mas permitidos quando se jura pelo ouro de ambos devido a oferta, dinheiro (Mt 23,16-22); 5) exigência de pagamento de oferta sobre verduras (práticas minuciosas), porém negligência  para com os mandamentos mais importantes como prática justiça, misericórdia e fidelidade, já denunciadas pelos profetas do A.T. (Am 6,8) (Mt 23,23-24); 6) problemática entre a aparência – realidade exterior – e o de mais profundo – realidade interior: a) copo e prato (Mt 23,25-26) e b) sepulcros caiados (Mt 23,27-28); 7) Construção de monumentos funerários para profetas do A.T. e os justos a fim de mostrarem que são diferentes dos seus antepassados que perseguiam e não ouviam a voz desses homens de Deus.

O que isso implicaria para os cristãos, já que aqueles que são criticados são os fariseus? Muitos cristãos vieram do judaísmo e facilmente poderiam ater-se em detalhes, excluindo os outros e não seguindo aquilo mais essencial. O mais importante da Lei, e que Jesus deixou bem claro, é sua observância profunda que implica uma fé prática. Todos são chamados a serem justos, misericordiosos e fieis, o que aponta para vivência radical do amor a Deus e ao próximo.

Nos dias de hoje, temos sido fieis ao amor a Deus e ao próximo ou nos apegamos a regras minuciosas e superficiais que muitas vezes afastam várias pessoas da Igreja? Somos coerentes com a fé que professamos ou cobramos dos outros aquilo que não fazemos?

Portanto, em meio a tanta superficialidade nos tempos atuais, somos chamados a viver nossa fé cristã na profundidade e na autenticidade, mas não na aparência ou hipocrisia. Precisamos ser justos e fieis não somente na igreja, mas no trabalho, na escola, na família e diversos outros seguimentos. Darmos testemunho aos outros, não como pessoas irrepreensíveis e impecáveis aos mandamentos somente, mas abertos à misericórdia e ao perdão quando os outros e até nós mesmos erramos.

 

* Membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Licenciado em Física pela UFC e em Filosofia pela UECE. Graduando em Teologia na FAJE-BH e pós-graduado em Formadores para Vida Religiosa no ISTA-BH. Contato: irjackson.nj@gmail.com

 

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