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Sinal ou Milagre? Existe alguma diferença?

Por Ir. Jackson C. Silva, NJ* 

crer

            Para muitos SINAL e MILAGRE significam a mesma coisa, inclusive em algumas traduções de nossas Bíblias não se apresenta a distinção e traduzem os dois termos simplesmente por “milagre”.

Etimologicamente, MILAGRE e SINAL são duas palavras distintas e consequentemente possuem significados diferentes. A primeira, (gr. dýnameis) apresenta como melhor tradução “ato de poder”, sendo utilizado nos evangelhos sinóticos. Aqui são focados os milagres em si e enfatiza o poder de Jesus, o taumaturgo, o profeta, o mestre. É tanto que alguns recebem a graça do milagre, mas nem todos creram (cf. Lc 17,11-19). Nos sinóticos, a , mesmo que superficial e focada no evento milagre, é condição para que Jesus realize o “ato de poder”.

Em se tratando da segunda palavra, gr. seméia/seméion deve-se traduzir por sinal e não por milagre como sugerem algumas traduções. O termo é utilizado no Evangelho de João. O sinal suscita a fé dos discípulos em Jesus (cf. Jo 2,18-23; 6,14-15.26; 7,31; 11,47) e manifesta a glória de Jesus que o operou (cf. Jo 2,1-11; 11,40). O sinal ultrapassa a realidade de si mesmo e vai além de um milagre, apesar de aparentemente ser semelhante. O foco não é o ato de poder de Jesus, mas a daqueles que veem sua manifestação. Percebamos que essa palavra sempre está ligada a palavra (gr. Pístis) e/ou o verbo crer (gr. Pisteúo).

Mas a fé pode vir sem o sinal? No episódio do funcionário real (cf. Jo 4,46-54), Jesus adverte a ligação entre sinal e fé: “Se não virdes sinais e prodígios, nunca acreditareis”(Jo 4,48). Mas o fato é que mais adiante Jesus fala que seu filho vive e o funcionário acredita na palavra de Jesus, mesmo não tendo visto o sinal. Não teria sido a Palavra de Jesus já um sinal? Ou estaria o funcionário real em um estágio de fé mais avançado que não precisasse ver o sinal? O fato é que no final da narrativa o funcionário confirma o sinal realizado por Jesus ao perguntar aos empregados a hora do “prodígio” e mais uma vez aparece a fé após o sinal realizado. A grande curiosidade desse episódio é que o funcionário não viu com seus olhos o sinal, apenas através da Palavra (de Jesus e dos empregados).

Já que encontramos essa ligação entre sinal e fé no Evangelho de João, Jesus teria valorizado os sinais? Jesus e seus interlocutores estão em planos bem diferentes. Apesar de utilizarem as mesmas palavras, elas apresentam significados diferentes. Assim aconteceu com a Samaritana em relação à água (cf. Jo 4,13-15) e com Nicodemos (cf. Jo 3,2-15) em relação a nascer de novo/alto. Com os sinais também se percebe a diferença de compreensão entre Jesus e seus interlocutores. Fica claro e amplo o significado de sinal para Jesus e para os que já creem: seus símbolos manifestam a realização da promessa outrora proferida pela Lei e o judaísmo. Para os interlocutores e os leitores que não creem, os sinais apresentam o significado apenas de “atos de poder” ou comumente milagre. São focados os prodígios e o autor que os realizou. Percebemos a exortação de Jesus quanto à diferença de compreensão, ou melhor, a incompreensão da manifestação dos sinais em Jo 6,26!

Portanto, o sinal no Evangelho de João é manifestação de forma sensível das realidades do Alto, isto é, da glória de Deus para suscitar a fé, como o evangelista deixa claro em sua conclusão (cf. Jo 20,30-31). Entretanto, convém lembrar que o sinal não define a fé, mas é um passo provisório da (nossa) caminhada de fé, já que em Jo 20,29 é enunciado que o tempo dos sinais estará superado: todos são chamados a crer não mais por verem os sinais, mas pela Palavra-experiência de Deus!

 

BIBLIOGRAFIA:

LÉON-DUFOUR, Xavier ­– Leitura do Evangelho segundo João I. Belo Horizonte: Loyola, 1996

KONINGS, Johan – Evangelho segundo João. São Paulo: Loyola, 2005

MATEOS, Juan & BARRETO, Juan – Vocabulário Teológico do Evangelho de São João. São Paulo: Paulinas, 1989

 

* Membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Licenciado em Física pela UFC e em Filosofia pela UECE. Graduando em Teologia na FAJE-BH e pós-graduado em Formadores para Vida Religiosa no ISTA-BH. Contato:irjackson.nj@gmail.com

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