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“Tu és o Cristo, o Filho de Deus”: O caminho do discipulado no evangelho de Marcos

Por Ir. Pe. Marcus Alves Mareano, NJ*

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Nossa existência é caminhada e movimento rumo a algo. Se em algum dia experimentamos verdadeiramente a Jesus Cristo, então Ele se torna a meta para a qual tende todas as nossas ações e o princípio no qual baseamos a nossa vida. Esse é o processo do discipulado: encontrar-se com Cristo e segui-lo.

Nas narrativas bíblicas, Deus toma a iniciativa de encontrar e se relacionar com o ser humano. Criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27), o homem tem seu habitat na comunhão com Deus (Gn 2,4-25), mas, por vezes, o drama do pecado distancia a criatura do criador, assim, descumpre-se a finalidade para a qual foi feita. Deus não desiste da obra prima de suas mãos e elege líderes (Noé, Abraão, Moisés etc.), por meio dos quais faz alianças com o povo e a humanidade (Gn 9; 17; Ex 19), para que o ser humano viva sua vocação primária. Mesmo o Senhor, sendo um “Deus de amor e fidelidade” (Ex 34,6), Israel insiste na infidelidade e na busca de outros deuses, traindo a aliança e afastando-se da vontade de Deus.

Entretanto, “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). A resposta de Deus à infidelidade humana é o envio de Jesus, o Filho, para manifestar à humanidade quem é Deus, qual o seu rosto e a sua vontade, consequentemente, manifestar quem é o ser humano. A nova relação com Deus acontece por meio de Jesus Cristo, que conhecemos nos relatos evangélicos.

Marcos é o mais antigo dos quatro evangelhos e serviu de fonte para Mateus, Lucas e João elaborarem o seu próprio escrito. Como o evangelho de Mateus é o mais longo, Lucas o mais bem-narrado e João o com os mais belos discursos, Marcos foi, no decorrer do tempo, menos privilegiado em detrimento dos outros. No século XX, houve uma redescoberta de Marcos, percebendo sua estrutura teológica e literária bem consistente que convida o leitor-ouvinte à descoberta e ao seguimento de Jesus, o Cristo e Filho de Deus.

Percebemos o enredo do evangelho de Marcos como um “caminho”. Para a Escritura, o caminho recorda a experiência fundamental do povo de Israel, que era um povo nômade, itinerante e saiu do Egito para uma terra dada pelo Senhor. Nem mesmo a instalação do povo, por Josué, no lugar prometido significou o fim do caminho. O caminho material se tornou símbolo do caminho ético e espiritual, da deixada de outros cativeiros para novas realizações.

No evangelho de Marcos, Jesus caminhou junto com João Batista na região do rio Jordão (Mc 1,1-13). Depois, Jesus percorreu a Galileia e os arredores pagãos (Mc 1,14-10,52), pregando a conversão à Boa-Nova e a proximidade do Reinado de Deus. Finalmente, Jesus passou pela Judeia, onde morreu (Mc 11,1-16,8), deixando para os discípulos a incumbência de se reencontrarem com ele na Galileia (Mc 16,7), onde, ressuscitado, os haveria de preceder.

Este “caminhar” é o percurso do discipulado. Como vimos, Jesus inicia sua missão preparando-se com João Batista e percorrendo a Galileia, onde ele chama os primeiros discípulos (André, Pedro, Tiago e João) e ensina-lhes por meio de palavras e ações. Os discípulos são constituídos para estar com o mestre e sair para pregar com autoridade sobre os espíritos impuros (Mc 3,14). Eles são continuadores do que viram e ouviram de Jesus, sentindo-se na missão daquele que aos poucos eles conheciam.

Da Galileia, Jesus se estende também aos arredores do lago de Genesaré e atinge os pagãos (Mc 7,24-10-46). Jesus é enviado para os judeus, mas estes não o reconheceram. Os pagãos aceitam e manifestam uma fé maior do que o povo escolhido por Deus (Mc 7,29). A salvação trazida por Jesus, e anunciada posteriormente pelos discípulos, não se restringe a um povo apenas, mas atinge a toda humanidade. Os discípulos, assim como o mestre, não podem se limitar a alguns, deve, antes, pretender chegar a todos com largos horizontes ecoando os gestos de amor e acolhida do mestre.

Enfim, o ministério de Jesus em Jerusalém é o cume da sua vida e o efeito da sua pregação. A morte e ressurreição de Jesus não podem ser compreendidas como um apêndice à sua vida, mas como consequência de sua doação e obediência ao plano do Pai. A cruz é a recompensa da fidelidade de Jesus, que o Pai responde ressuscitando-o dentre os mortos. Para os discípulos, a paixão e a morte de cruz eram incompreensíveis (Mc 8, 31-33; 9,30-32; 10,32-34), no entanto, esse escândalo e essa loucura (cf. 1Cor 1,23) tornam-se o anúncio ousado da comunidade cristã após sua ressurreição. Jesus manifesta quem ele é e como ele é na cruz, revelando que Deus é um Pai que não abandona o Filho e nos dá o Espírito Santo para que o reconheçamos.

Caminhar significa proceder, agir, conduzir a vida como Jesus. Ele nos mostra o caminho e Ele mesmo se diz como “caminho” (Jo 14,6). Então, mais do que percorrer um trajeto geográfico, entrar na dinâmica do discipulado significa conhecer profundamente quem é este tal Jesus e como ele é de fato o Cristo.

Enquanto se caminha, reconhecemos quem é Jesus. A primeira parte do evangelho de Marcos (1,16-8,30) caracteriza-se pelas tentativas de respostas à pergunta: “quem é ele?” (1,27; 4,41; 6,14-16; 8,27). Quem é este que ensina como quem tem autoridade, cura as enfermidades, expulsa os demônios, domina a natureza e enfrenta o grupo religioso daquele tempo? Pedro responde: “tu és o Cristo” (Mc 8,29). Aquele nazareno, taumaturgo e pregador andarilho é o Messias aguardado de Israel.

No entanto, a reposta de Pedro ainda não é suficiente, não bastava reconhecer Jesus como o Cristo, mas necessitava-se entender de que maneira ele é o Cristo, o modo como ele realiza sua missão. A segunda parte do evangelho de Marcos (8,30-16,8) demonstra que ele é um messias diferente, ele é à maneira do misterioso “Filho do Homem” (Dn 7), que assume, por fidelidade ao Pai e aos seus irmãos, o sofrimento e a morte como o “Servo Sofredor” (Is 42). Na cruz, ele é reconhecido pelo pagão: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). Então, “Filho de Deus” é a confissão de fé concluída que define quem é Jesus, antes professada apenas pelos demônios e proclamada pelo Pai na transfiguração (Mc 9,7), agora apresentada e proclamada por toda humanidade pela boca de um pagão.

Nós que lemos esses trechos hoje e entramos nessa dinâmica, assumimos em nossas vidas um “caminhar” com Jesus, que é também reconhecimento gradual da sua pessoa e da sua ação. Ser discípulo significa relacionar-se constantemente com o mestre, aderir aos seus ensinamentos e transmitir essa vivência. Coloquemo-nos no caminho e descubramos quem este Jesus que nos chama.

Assim como os discípulos reconhecem Jesus na medida em que vivem, escutam e experimentam o mestre, nós cotidianamente, com nossa relação com Deus, crescemos no conhecimento de Jesus, o Cristo, o Filho de Deus, que se revela a nós e nos faz reelaborarmos nossas concepções para compreendê-lo como uma perene novidade que nos atrai para o seguimento.

*Padre do Instituto Religioso Nova Jerusalém, graduado em Filosofia pela UECE e em Teologia pela FAJE-MG. Doutorando em Teologia Sistemática pela mesma faculdade.

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