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O papel da Sagrada Escritura e dos Profetas no conhecimento segundo Heschel

Por Ir. Narcélio Ferreira de Lima, NJ*

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Partindo de seu método epistemológico, chamado de “pensamento situacional”, isto é, a verificação da realidade a partir de eventos concretos (situações) e não simplesmente por meros conceitos, o filósofo e teólogo judeu polonês Abraham Joshua Heschel (1907-1972) procurou refletir e esclarecer muitos dos eventos bíblicos que marcaram a vida de seus antepassados, e que por sua vez, escaparam por uma análise meramente conceitual. Mostra que na Bíblia existem fatos que a filosofia não consegue atingir, visto que o pensar filosófico está preocupado em descobrir a essência das coisas, os princípios do ser, e estes a partir de premissas universais; já a Bíblia está interessada em revelar a face do Deus Criador e sua vontade que se concretiza numa tradição viva e na intuição pessoal que sempre partiu de acontecimentos históricos concretos. Para Heschel esses temas bíblicos ainda permanecem desafios para a filosofia. Ele fez uma verificação não satisfatória na filosofia ocidental, notou a ausência da Bíblia e dos profetas, em especial no que diz respeito à construção da metafísica ocidental. Não se refere aqui a citações ou referências, que até já foram aceitas, mas à forma de pensar, ao espírito e à maneira de olhar a vida que são próprios da Sagrada Escritura. A constatação de Heschel é que o pensamento grego paira sobre a filosofia ocidental, já o pensamento hebraico é esquecido. Há, para ele, portanto, duas aproximações que podem esclarecer tal fato no pensamento filosófico:

“A primeira aproximação manifesta que a Bíblia é um livro ingênuo, poético ou mitológico. Belo como é, não deveria ser levado a sério, pois no seu pensamento há primitivismo e imaturidade. Como poderíamos compará-lo com Hegel ou Hobbes, John Loche ou Schopenhauer? O pai da depreciação a respeito da relevância intelectual da Bíblia é Spinoza, que pode ser responsabilizado por muitos aspectos distorcidos da Bíblia numa filosofia e exegese subsequente. A segunda aproximação manifesta que Moisés teve as mesmas ideias que Platão e Aristóteles, que não existe sérias divergências entre os ensinamentos dos profetas. A diferença, diz-se, é meramente algo de expressão e estilo. Aristóteles, por exemplo, usou termos inequívocos, enquanto os profetas empregaram metáforas. O pai desta aproximação é Fílon. A teologia foi dominada pela teoria de Fílon, enquanto a filosofia geral seguiu a atitude de Spinoza”. (HESCHEL, Deus em busca do homem, p. 41-42)

Heschel admite não se encontrar na bíblia um vocabulário filosófico, mas também reconhece que um bom pesquisador não deve buscar o que já se tem. Lamenta que as pesquisas acerca de uma filosofia da religião tenham sido feitas apenas dentro de parâmetros do pensamento grego e insiste em dizer que uma filosofia do judaísmo deve encontrar suas bases na Bíblia, visto que o judaísmo nada mais é do que um confronto com ela.

Se a Bíblia pode ser aceita como expressão da vontade de Deus, seus porta-vozes foram os profetas; Heschel tenta nos mostrar se tal revelação é um fato e que tipo de evidência podemos obter da experiência dos profetas bíblicos. Por um lado, nosso autor apresenta as pesquisas arqueológicas feitas no Egito sobre os palestinos antigos que ali residiram e o contato dos assírios com alguns profetas, tais como Amós e Isaías, já que o homem moderno aceitaria tais pesquisas mais importantes que o conteúdo da revelação. Por outro lado, apresenta uma importante observação sobre o impacto dessa experiência profética:

“Os grandes profetas tinham uma coisa em comum: a revelação lhes veio de surpresa, como uma explosão repentina. Eles se surpreendiam mais pelo fato de ouvirem do que por aquilo que ouviam. Suas perceptividades surgiram pela própria revelação. É a revelação que torna o homem capaz de receber uma revelação. Ele se torna expert com a experiência”. (HESCHEL, Deus em busca do homem, p. 278-279)

Sem dúvida, como afirmam os profetas, foi a palavra de Deus que os inspirou a falar, e para Heschel tal declaração não pode ser ignorada, depreciada ou criticada; trata-se de uma mensagem que perpassou mais de três mil anos a história dos homens. O que aqui está em jogo, comenta, é nossa união com Deus, pois os  profetas representam o gênero humano e a questão sobre a Bíblia é questão sobre o mundo. Muitos têm comparado a Bíblia com literatura, como se esse título fosse o mais alto louvor, mas para Heschel existem muitas literaturas e apenas uma Bíblia, ela deixa transparecer por si mesma sua singularidade, visto “que nenhuma imaginação humana poderia conceber uma obra comparável a ela em profundidade, imorredoura e frequentemente de beleza insuperável”. A Bíblia mudou a concepção de homem, pois revelou sua independência diante da natureza, mostrou também sua superioridade frente às condições e ainda fez-nos entender os simples atos, mostrando que o homem não está sozinho, jogado ao acaso, e que sua missão é ser um companheiro mais que um mestre, a partir de um caminho que lhe faz homem e santo.

“Não é o mero sentimento, mas a ação, que irá mitigar a miséria do mundo, a injustiça na sociedade e a alienação do povo com relação a Deus. Somente a ação aliviará a tensão entre o homem e Deus”. (A. J. Heschel)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HESCHEL, Abraham Joshua. Deus em busca do homem. Paulinas: São Paulo,
1975. p.
______. O Homem não está só. Paulinas: São Paulo, 1974.

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*Membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém, graduado em Filosofia pela Faculdade Católica de Fortaleza – FCF e graduando em Teologia pela Faculdade Diocesana de Mossoró – FDM.

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