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“Deixai-vos conduzir pelo Espírito” (Gl 5,16)

Por Ir. Jackson C. Silva, NJ*

pentecostes

Introdução à Carta:

             Escrita em 49/50 d.C às várias Igrejas da Galácia, uma das províncias romanas na Ásia Menor, a Carta aos Gálatas é a mais severa que o apóstolo escreveu. Falta-lhe agradecimentos e elogios aos seus destinatários, chamados de “insensatos”. Isso porque eles estavam se voltando a prender às práticas externas judaicas, apoiando-se na LEI e esquecendo o ensinamento de Paulo. Por outro lado, a carta mostra o verdadeiro e único evangelho: A salvação como puro dom gratuito de Deus ao ser humano por meio de sua GRAÇA.

 Lei ou Graça?

A Lei ilumina o que devo seguir e por isso é válida! Entretanto, mesmo importante e sendo o cume da vida de Israel, os israelitas foram infiéis à Lei e por isso sofreram opressão de vários povos, principalmente no Exílio! De fato, não basta somente ouvir e praticar externamente a Lei, como denunciavam os profetas do Antigo Testamento, pois isso não foi suficiente para evitar o mal e fazer o bem! Se, por exemplo, todo mundo sabe que matar é uma falta gravíssima, por que ainda há tantos assassinatos, violência, guerra etc? Não basta somente saber dos erros, mas ter força para não cometê-los.

Desse modo, foi preciso Deus intervir no mais íntimo do ser humano para que ele andasse em seu caminho. Assim, a ação do Espírito em nós já não seria a circuncisão do coração que permitiria a verdadeira observância da Lei (Dt 30,8-10)? Não seria a lei do Senhor escrita no íntimo do nosso coração e não simplesmente em tábuas de pedra (cf. Jr 31,33)? Não seria a realização da promessa de Ez 36,27?

E como os cristãos veem essa promessa cumprida? Concretizada na pessoa de Jesus Cristo que posteriormente enviou o Espírito Santo. Com a experiência do Cristo Ressuscitado que venceu o pecado e a morte, experimentamos a filiação à Deus e recebemos o Espírito Santo que nos faz recusar todo tipo de escravidão. Com tamanho amor sou impulsionado a viver no Espírito a Vontade de Deus na minha vida. A Lei não me obriga a viver assim, mas a cumpro como consequência dessa Vida no Espírito que mora dentro de mim. É o Espírito que vem em auxílio da nossa fraqueza (cf. Rm 8,36) para vivermos o caminho de Deus e não a Lei.

Porém é claro que isso não acontece automaticamente! Por mais que dependamos de Deus para viver perfeitamente, Ele só age se, pela nossa liberdade, deixarmos. Por isso, mesmo que Deus habite no ser humano, ainda vemos muitas atitudes contrárias no mundo: guerras, fome, miséria, assassinatos, inveja, injustiça etc. A falta de testemunho, sobretudo dos cristãos, não torna ilegítima a ação de Deus no ser humano. Mesmo que isso seja questionador para os próprios cristãos e pessoas de tantas religiões, a ação de Deus, em vista de seu infinito amor, depende da liberdade do homem em deixar ser guiado pelo Espírito (Gl 5,13)

 Decisão de ser guiado ou não pelo Espírito Santo: Obras da Carne x Obras do Espírito

O apóstolo Paulo ainda esclarece as consequências de viver ou não guiado pelo Espírito destacando a oposição entre as obras da “carne” e as obras do “espírito”. O primeiro termo refere-se a vida não guiada pelo Espírito. Por mais que o termo grego utilizado sarx se traduza por CARNE, não podemos interpretar as obras “da carne” como originadas do corpo. Durante muito tempo, por influência grega houve uma repulsa do corpo, assumindo-o como mau. Isso fere os primeiros versículos da Bíblia em que Deus criou o mundo e o ser humano muito bom, além da amorosa atitude de Deus enviando seu Filho ao mundo sendo verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. As 15 “obras da carne” elencadas em Gl 5,19-21 não tem origem no “corpo humano”, mas sim nas “aspirações contrárias ao Espírito”, aquilo ocasionado quando se distancia de Deus e pouco a pouco não se vai alimentando a relação de amizade e amor com Ele.

Por outro lado, as “obras do Espírito” não são aquelas ligadas exclusivamente à alma humana. Os frutos do Espírito provém da liberdade do homem em integralmente decidir estar permanentemente com Deus.

Tomando ainda Gl 6,8 vemos a oposição das atitudes da “carne” e do “espírito” e seu resultado:

Semear para a carne → corrupção!
Semear para o Espírito → vida eterna!

Não deixando ser conduzido pelo Espírito por nossa liberdade não prosseguimos no relacionamento de amor com Deus. Desse modo, ficamos cheios de lacunas, vazios  e procuramos ser preenchidos por falsos amores que dão margem aos frutos da carne. Queremos satisfazer essas carências na fornicação e na impureza. Pensamos que ser livre é agir na libertinagem, mas nos tornamos mais presos através dela. Colocamos diversas pessoas ou coisas no lugar de Deus resultando na idolatria e ficando inseguros pelas superstições. Vazios e longes de Deus fazemos inimizades e intrigas principalmente com os mais próximos de nós. Surgem ciúmes, iras, rivalidades, discórdias, divisões e invejas provocando tantos malefícios à humanidade como assassinatos e guerras. Pela embriaguez, pensa-se que alcançou a felicidade, porém logo vem a “ressaca”, tristeza e agonia.  Abusos na comida também querem manifestar felicidade pela saciedade, mas no fundo são compensações de nossas carências. Disso discorre diversas outras coisas semelhantes.

Guiados pelo Espírito estamos em comunhão com Deus e disso resulta o verdadeiro amor. Conseguimos perceber o quanto somos amados por Ele e o quanto podemos amar nosso semelhante. Consequentemente vem a alegria já que não nos falta nada e por isso permanecendo em paz, temos paciência e autodomínio. Somos mansos e amáveis conosco e com os outros e a bondade permanece entre todos. Desse modo, somos impulsionados a ser fieis a Deus e aos nossos irmãos. De fato, esses são os frutos do Espírito (Gl 5,22-24) e nisso se cumpre a Lei!

Portanto, deixando ser conduzidos pelo Espírito, longe de cobiça e vanglória, somos chamados a viver harmoniosamente com nosso semelhante. Nossa conduta, ao invés de provocar inveja aos outros, manifestará um autêntico testemunho de verdadeiros discípulos de Cristo e filhos de Deus.

 Para refletir:

  1. O que nos dispersa e faz nos distanciar de Deus, impedindo ou dificultando sua ação em nossa vida?
  2. Que atitudes preciso tomar para que Deus intervenha em minha vida e eu seja guiado por Ele?

 

* Membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Licenciado em Física pela UFC e em Filosofia pela UECE. Graduando em Teologia na FAJE-BH e pós-graduado em Formadores para Vida Religiosa no ISTA-BH. Contato: irjackson.nj@gmail.com

 

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